domingo, 9 de agosto de 2009

uma lembrança cheirosa



sinto muitas saudades do meu pai, que morreu há quase 8 anos.

durante quase toda a vida nós nunca fomos muito próximos, embora eu sempre tivesse tido certeza do seu amor. ele veio de uma família que não usa muito demonstrar afeto. não me lembro de estar no colo dos meus avós, por exemplo - ao contrário dos outros, maternos, que sempre foram carinhosos.

tivemos brigas homéricas, principalmente na minha adolescência. eu sempre fui turrona, destemida, avançadinha - prá-frente, como se dizia na época - e ele não aceitava isso. nem eu aceitava ser tolhida na minha liberdade. ai, já viu, né?

apesar de ser assim, secão, ele era um homem de um coração imenso, que fazia qualquer coisa pelos outros, tirava a roupa do corpo, se fosse preciso.

teimoso, extremamente teimoso - puxei a ele -, nunca, jamais, perdia uma discussão, mesmo que não tivesse razão. discutia por detalhes; era minucioso: quando queria chutar alguma probabilidade, dizia, por exemplo, 37,43%, e não 30%, como dizem as pessoas normais.
estourado, outra característica que herdei, não era de levar desaforo pra casa.

sãopaulino roxo, e mais ainda anti-corintiano, foi obrigado a aceitar o genro que é doente pelo timão. dos meus 3 filhos - únicos netos - só conseguiu levar uma pro seu time, os outros seguiram o pai, pra sua tristeza.

quando nasceram os netos, transformou-se. deixou de ser o homem duro que sempre foi e começou a amolecer. (imagino a manteiga que seria se tivesse conhecido o bisneto!!)

uns meses antes de morrer, ainda sem saber que estava doente, mudou-se para itu, e só aí nos aproximamos, nos víamos quase todos os dias. ele cuidava das minhas árvores, plantou pra mim um lindo e perfumado pé de manjericão...

foi uma pena que essa convivência tenha durado tão pouco. 4 meses depois sua doença foi descoberta, e em pouco mais de 2 meses ele se foi.

é engraçado, mas dos 44 anos que convivemos, a primeira imagem que me vem à cabeça quando me lembro dele é de um dia, em itu, que nos encontramos na rua. paramos, ambos, os carros, descemos, e nos beijamos. ele estava de camisa polo branca. tinha acabado de tomar banho e fazer a barba, e o cheiro de sua colônia, misturada ao sabonete, era muito gostoso. a pele do seu rosto estava macia, suave ao toque do beijo. é sempre disso que me lembro, e é uma lembrança muito gostosa e cheirosa...

feliz dia dos pais!!

12 comentários:

Cris disse...

Nossa Fátima viajei no tempo...apesar de não ter mais meu pai, essa coisa do cheiro era muito forte no meu avó, ele cheirava sabonete Palmolive verde, e essa lembrança me veio muito forte lendo teu texto. Muito lindo!
Tem um selinho para vc láno meu canto, espero que aceite e que goste.
Bj grande!

Anônimo disse...

Vim parar aqui por engano, e ler a sua recordação de seu pai fez-me lembrar o meu, que também era pouco dado a manifestações carinhosas, introvertido, mas sempre prestável para toda a gente e desejando ajudar no que fosse preciso. Só o conheci verdadeiramente quando o meu filho nasceu: aí era colinho p'rà direita, beijinhos p'rà esquerda e entendi que ele deveria ter-me amado também assim, só que naquele tempo não era muito viril esses melaços. Agradeço a Deus ter-me deixado "conhecer" o meu pai ainda antes de morrer. Tenho uma saudade imensa dele. Paz à sua alma.
Fernanda - Portugal

Kyria disse...

Sempre existe a hora de se reconhecer o amor e este tempo chegou no momento certo. Salve o papai. Beijos procês.

HSLO disse...

Gostei muito do seu blog...é a primeira vez que passo por aqui.
Já sou um seguidor

abraços;;;


Hugo de Oliveira

Lúcia Soares disse...

Fátima, li você no blog Mulheres (Im)Possíveis e cheguei aqui.Você descreveu exatamente o meu pai! Arrepiei! Só que eu e ele não nos "pegamos" porque ao contrário do que você conta a seu respeito, eu era "mansinha" e ele também era muito bravo e não adiantava discutir. E não era teimoso, também. No resto, tudo igual. E ele se foi quando eu tinha 46 anos e me senti uma menina, perdida no mundo, e doeu ser órfã...Dói até hoje. Bom, prazer em conhecê-la. Hoje tá tarde, amanhã leio mais.

Dri Viaro disse...

Boa semana pra vc.
Voltarei com mais tempo depois.
bjssss

angela disse...

lindo, Fátima, muito lindo! bjs

Wlady disse...

Oi Fátima! Lindo seu post!
que saudade do meu pai!
bjk

Ana disse...

oi Fátima

Que bom que as pessoas mudam e ficam mais doces...dizem mesmo que os netos fazem isso.
Foi ótimo ele ter ido morar perto de vc e terem um deliciosa convivência!!!

bjus ana maria

Jane Murback disse...

Lindo Fátima!
Bom que a imagem marcante seja uma imagem recente, você não acha?
Eu acho que é melhor do que ter uma imagem muito remota, não sei.

Ei, quer dizer que tu era prafentex é? E continua sendo ... Ainda bem!

Bjo

Kyria disse...

Saudades, passei para deixar um oi. Bjs

Dri Viaro disse...

Fátima, linda a homenagem
bjsss